segunda-feira, 31 de dezembro de 2007
domingo, 30 de dezembro de 2007
CIBERPSICOMAGIA
RITUAL CIBERPSICOMÁGICO
PARA CONTACTAR O ESPÍRITO DE UM COMPUTADOR MORTO
Os atos psicomágicos equivalen a construir sonhos na realidade. Se estas coisas não sucedem, temos que fazer que sucedam. (Alejandro Jodorowsky)
De repente e sem explicação nenhuma o computador de Dariush morreu. Ele ficou muito frustrado. É difícil essa relação entre seres humanos e computadores – neuroses, má postura, lesão por esforço repetitivo (LER), dependência mútua. Nada de carne para tocar.
Dariush chamou quatro ciberpsicomágicos - e a metasubcibertrans - para fazer um ritual de enterramento do computador - e um chamamento coletivo por sua memória e imagem. O ritual usa música, efeitos visuais, menmônicos e imagéticos para acelerar o processo energético.
A Ciberpsicomagia consiste na desneurotização e reconciliação entre seres de carne e ciberseres a partir de técnicas rituais mágicas sem nenhum vínculo supersticioso e ideológico. A problemática: como podemos construir relações que superem a lógica e imanentizem-se nos atos poéticos fazendo parceria com os assim chamados seres lógicos? É certo que os computadores não sonham? hum zero hum zero hum hum hum zero zero hum hum hum. É um mantra.
Esse ritual é a primeira aparição pública do grupo CPM-I – CiberPsicoMagia-Internacional.
Por ser um ritual, acontecera pontualmente à meia noite. Durante a festa das Bananeiras da Sexta, 21/12.
eSpaço bAnaneiras
21h até ...???
sexta-feira 21/12/2007
pizza, vinho, drinks, vídeos eróticos, performances
videos projeto orelhão
vídeos de performance e política (Instituto Hemisférico NYU)
meianoite – ritual ciberpsicomagia
Dj Marc Etlin (NY) Dj Amaral (RJ)
improvisações experimentações
traga sua idéia para a próxima sexta ... vc é bem-vind@
Ladeira do Castro 209. perto Largo Guimarães
Santa Teresa, RJ
Em 19/12/07, fabi borges escreveu:
Olá amigos,
O eSpaço bAnaneiras convida vc
para estar mais uma sexta feira aqui:
Nesse dia 21/12 teremos:
pizza, vinho, drinks, vídeos eróticos, retrospectivas
de eventos, Vídeos de performance e política
(Instituto Hemisférico (NYU) e Batuque pesado!!
Dj Mark Etlin, Dj Amaral e também músicas latinas
pra acompanhar a pizza mexicana com tequila!
e o lançamento do Ritual de ciberpsicomagia,
com dariush sokolov, fabi borges, daniela mattos, Owen, e outros... (essa é para aliviar a neurose entre sujeitos e máquinas)
Afora isso algumas outras improvisações... experimentações como é típico da casa:
Traga sua idéia para a próxima sexta feira,
vc é bem vindo!
Bananeiras abre todas sextas feiras a noite,
das 19 hs até sabe-se lá que horas!
Ladeira do Castro 209, próximo ao Largo Guimarães
a partir das 19 hs...
Um beijo a todos, Bia, Fabi, Leo
PARA CONTACTAR O ESPÍRITO DE UM COMPUTADOR MORTO
Os atos psicomágicos equivalen a construir sonhos na realidade. Se estas coisas não sucedem, temos que fazer que sucedam. (Alejandro Jodorowsky)
De repente e sem explicação nenhuma o computador de Dariush morreu. Ele ficou muito frustrado. É difícil essa relação entre seres humanos e computadores – neuroses, má postura, lesão por esforço repetitivo (LER), dependência mútua. Nada de carne para tocar.
Dariush chamou quatro ciberpsicomágicos - e a metasubcibertrans - para fazer um ritual de enterramento do computador - e um chamamento coletivo por sua memória e imagem. O ritual usa música, efeitos visuais, menmônicos e imagéticos para acelerar o processo energético.
A Ciberpsicomagia consiste na desneurotização e reconciliação entre seres de carne e ciberseres a partir de técnicas rituais mágicas sem nenhum vínculo supersticioso e ideológico. A problemática: como podemos construir relações que superem a lógica e imanentizem-se nos atos poéticos fazendo parceria com os assim chamados seres lógicos? É certo que os computadores não sonham? hum zero hum zero hum hum hum zero zero hum hum hum. É um mantra.
Esse ritual é a primeira aparição pública do grupo CPM-I – CiberPsicoMagia-Internacional.
Por ser um ritual, acontecera pontualmente à meia noite. Durante a festa das Bananeiras da Sexta, 21/12.
eSpaço bAnaneiras
21h até ...???
sexta-feira 21/12/2007
pizza, vinho, drinks, vídeos eróticos, performances
videos projeto orelhão
vídeos de performance e política (Instituto Hemisférico NYU)
meianoite – ritual ciberpsicomagia
Dj Marc Etlin (NY) Dj Amaral (RJ)
improvisações experimentações
traga sua idéia para a próxima sexta ... vc é bem-vind@
Ladeira do Castro 209. perto Largo Guimarães
Santa Teresa, RJ
Em 19/12/07, fabi borges
Olá amigos,
O eSpaço bAnaneiras convida vc
para estar mais uma sexta feira aqui:
Nesse dia 21/12 teremos:
pizza, vinho, drinks, vídeos eróticos, retrospectivas
de eventos, Vídeos de performance e política
(Instituto Hemisférico (NYU) e Batuque pesado!!
Dj Mark Etlin, Dj Amaral e também músicas latinas
pra acompanhar a pizza mexicana com tequila!
e o lançamento do Ritual de ciberpsicomagia,
com dariush sokolov, fabi borges, daniela mattos, Owen, e outros... (essa é para aliviar a neurose entre sujeitos e máquinas)
Afora isso algumas outras improvisações... experimentações como é típico da casa:
Traga sua idéia para a próxima sexta feira,
vc é bem vindo!
Bananeiras abre todas sextas feiras a noite,
das 19 hs até sabe-se lá que horas!
Ladeira do Castro 209, próximo ao Largo Guimarães
a partir das 19 hs...
Um beijo a todos, Bia, Fabi, Leo
quinta-feira, 22 de novembro de 2007
masturbações
masturbação 1
por fabi borges
Eu queria dormir com vc mas vc roncava muito, tanto que mais parecia os tiros de escopeta da favela vizinha pela morte do comandante, a luz ensurdecedora dos fogos artificiais.\!
Vc prometeu me comer, mas quando vim do banheiro, vestida no meu vestido de cetim, cleptomaniacamente roubado do varal de uma noite enferma no castelo, onde joguei dardos a noite inteira e sonhei em comer o quase filho do ex-presidente, vc dormia.
O vestido tomara-que-caia que botei pra te seduzir era vermelho como o sangue da minha menstruação que naquele dia ainda estava todo nos meus seios e em volta dos meus quadris. E quando o sangue fica no seio ele entumesce, fica mais farto, sensível, doído. Nos restos dos dias eles ficam flácidos, caídos, mas as rodelas ficam numa cor tão saborosa, cor-de-ramón, e quando me mordem debaixo deles, puxando-os com os dentes eu viro garsa.
Mas vc era só mais um ente na minha cama, nem lembrava seu nome, queria vc chupando minha menstruação pelas mamilas, e brincando com as duas mortadelas bêbadas. Não farei operação nenhuma até os 40, quando talvez decida extirpar uma tendência e talvez o seios sobrem.
Eu pensei em te mostrar de início que possuía os dois sexos, para irmos direto ao assunto e eu poder te foder também, cansada desse esconde-esconde que estou. Para alguns é broxante, uma ofensa, traição.
Muitos homens que não roncam já roncaram feito motor de corcel ao baixarem rápido demais as mãos até o meio das minhas pernas e descobrirem minhas potências. Sou polisônica. Quase tua, nua e puta numa cama que abrigaram tantos outros corpos tendenciais. 20 milhões de hermafroditas no mundo. A farta mitologia sobre os dois sexos não era balsâmico o suficiente para convencer certas mãos heteros de mais, viciadas de mais num dualismo insustentável e não raro.
Não soubestes de nada porque te entregastes cedo de mais ao sono, e agora, já passado o dia e o outro dia seguinte, te olhei nos olhos no churrasco e fiquei com nojo do teu ronco e tua falta de banho e tua boca aberta que deveria estar na minha boca mas alucinava sosinha um grito de porco. Preferi fritar meus dois olhos verdes na silueta da mulher que estava contigo. Analizei friamente o tamanho dos seus dedos e o contorno dos seus bíceps, imaginei-a dormindo também, com voz infantil levantando a minha mão até seu rostinho pra eu lhe fazer carinho e num segundo tive a impressão que não lidaria bem com sua palavrinha doce ala bjork, sua infância mal resolvida trazida pra cama, confundindo-me com sua tiazinha da capital. Não mulher, não fale como criança que quase vomito. Me fale como erótica fatalle que te enrabo até jorrar menstruação, esperma e corrimento na tua cona a dentro. De resto, drinks e masturbação.
masturbação 2
Queria um objeto para me exercitar e saí pela sala da academia catando algo que coubesse minimamente pelo corpo todo. Algo suave, delicado e redondo. Uma bola, nem grande nem pequena. Uma bola vermelha. No trigésimo sétimo abdominal comecei a sentir o absurdo subindo pela jugular. Um prazer inconteste testando-me em ser discreta. Já estava no 68 tive que triplicar a velocidade para acompanhar a turma nos 70 e não correr o risco de trancar já doida a cara de asfixia barata.
por fabi borges
Eu queria dormir com vc mas vc roncava muito, tanto que mais parecia os tiros de escopeta da favela vizinha pela morte do comandante, a luz ensurdecedora dos fogos artificiais.\!
Vc prometeu me comer, mas quando vim do banheiro, vestida no meu vestido de cetim, cleptomaniacamente roubado do varal de uma noite enferma no castelo, onde joguei dardos a noite inteira e sonhei em comer o quase filho do ex-presidente, vc dormia.
O vestido tomara-que-caia que botei pra te seduzir era vermelho como o sangue da minha menstruação que naquele dia ainda estava todo nos meus seios e em volta dos meus quadris. E quando o sangue fica no seio ele entumesce, fica mais farto, sensível, doído. Nos restos dos dias eles ficam flácidos, caídos, mas as rodelas ficam numa cor tão saborosa, cor-de-ramón, e quando me mordem debaixo deles, puxando-os com os dentes eu viro garsa.
Mas vc era só mais um ente na minha cama, nem lembrava seu nome, queria vc chupando minha menstruação pelas mamilas, e brincando com as duas mortadelas bêbadas. Não farei operação nenhuma até os 40, quando talvez decida extirpar uma tendência e talvez o seios sobrem.
Eu pensei em te mostrar de início que possuía os dois sexos, para irmos direto ao assunto e eu poder te foder também, cansada desse esconde-esconde que estou. Para alguns é broxante, uma ofensa, traição.
Muitos homens que não roncam já roncaram feito motor de corcel ao baixarem rápido demais as mãos até o meio das minhas pernas e descobrirem minhas potências. Sou polisônica. Quase tua, nua e puta numa cama que abrigaram tantos outros corpos tendenciais. 20 milhões de hermafroditas no mundo. A farta mitologia sobre os dois sexos não era balsâmico o suficiente para convencer certas mãos heteros de mais, viciadas de mais num dualismo insustentável e não raro.
Não soubestes de nada porque te entregastes cedo de mais ao sono, e agora, já passado o dia e o outro dia seguinte, te olhei nos olhos no churrasco e fiquei com nojo do teu ronco e tua falta de banho e tua boca aberta que deveria estar na minha boca mas alucinava sosinha um grito de porco. Preferi fritar meus dois olhos verdes na silueta da mulher que estava contigo. Analizei friamente o tamanho dos seus dedos e o contorno dos seus bíceps, imaginei-a dormindo também, com voz infantil levantando a minha mão até seu rostinho pra eu lhe fazer carinho e num segundo tive a impressão que não lidaria bem com sua palavrinha doce ala bjork, sua infância mal resolvida trazida pra cama, confundindo-me com sua tiazinha da capital. Não mulher, não fale como criança que quase vomito. Me fale como erótica fatalle que te enrabo até jorrar menstruação, esperma e corrimento na tua cona a dentro. De resto, drinks e masturbação.
masturbação 2
Queria um objeto para me exercitar e saí pela sala da academia catando algo que coubesse minimamente pelo corpo todo. Algo suave, delicado e redondo. Uma bola, nem grande nem pequena. Uma bola vermelha. No trigésimo sétimo abdominal comecei a sentir o absurdo subindo pela jugular. Um prazer inconteste testando-me em ser discreta. Já estava no 68 tive que triplicar a velocidade para acompanhar a turma nos 70 e não correr o risco de trancar já doida a cara de asfixia barata.
sexta-feira, 2 de novembro de 2007
quarta-feira, 31 de outubro de 2007
terça-feira, 30 de outubro de 2007
EROTICOMIA
EROTICOMIA
EROTICOMIA é um evento de arte que tem como tema o erótico, com o propósito de discutir a estética do erotismo, fetiche na arte, sexualidade e capitalismo.
Vai acontecer no dia 26 de outubro de 2007 a partir das 21 horas no Espaço Bananeiras situado na Ladeira do Castro, 209, Largo do Guimarães, Santa Tereza, Rio de Janeiro.
APRESENTAÇÃO
Pra começo de conversa "erotismo" é um estado de espírito. Uma presença de corpo e de energia intensificada que é capaz de inundar um ambiente de estranhas sensações. Erotismo é poder. Poder de abertura, ruptura, lambedura, sensualidade, promessa de gozo, apetite, vontade de comer, de foder, de engolfar, de obter, que se mistura e se manifesta no gesto. Gesto erótico é estilo. Não precisa ser triunfo, é modo de estar no mundo.
Reivindicamos os gestos eróticos perdidos na propraganda do tríptico espasmódico: peito, coluna, bunda. Há erotismo em outras partes também; no pé descalso, no pé de cabra, no pé de aquiles, na fraqueza, na celulite; erotismo é desejo manifesto injetando doses de tensão. Erotismo é intenção, tesão e ativismo.
Além dessas definições sobre o erotismo, levamos em consideração a questão do corpo como antro dos devires, criando para o evento um nome que vem da junção das palavras "erótico" com "alquimia¨, apontando para a resolução do paradoxo que separa corpo e espírito. Ou seja, reinvindicamos, como postulado, a metafísica da carne.
PARCERIAS:
ESPAÇO BANANEIRAS: Em seus sete anos de existência o Espaço Bananeiras realiza mais um evento coerente com sua opção por ser um espaço alternativo no circuito de arte carioca. Os projetos efetivados nesse espaço, muitas vezes funcionaram como intensos laboratórios para viabilização de trabalhos em espaços institucionais, assim como exposições que priorizam a aproximação entre artistas e público. Esse projeto atual, Eroticomia, é mais um desafio no tocante a arte, vida, ativismo, política; O Espaço Bananeiras inaugura um novo período de pesquisa e experimentação com expectativa de multiplicação e desdobramentos de outros projetos.
DASPU: A participação da ong DAVIDA com a grife DASPU tem muitas funções, como apresentar sua coleção de roupas eróticas, suas performances sexuais, trazer a discussão sobre o papel da prostituição na história da sociedade, e forçar-nos a pensar o erotismo próprio dos domínios da prostituição. Sua presença é de extrema importância para trazer à tona as questões sobre preconceito, sexualidade e vida pública.
GLOBAL: O lançamento do último número da revista GLOBAL tem a função de atiçar a discussão política sobre erotismo, sexualidade e capitalismo, produzindo pensamento em torno das relações entre poder e sexo e ampliando as interpretações sobre signos sexuais, fetiches , mercado e meios de produção. Além de trazer um público intelectualizado, advindo de diversificados seguimentos culturais do Rio de Janeiro.
O EVENTO:
A criação de um ambiente imersivo de reflexão sobre o sexo e as práticas de sexualidade que está dentro do contexto da arte contemporânea por intermédio de muitos artistas, cineastas, performers que têm se dedicado sobre o tema, ampliando seus significados e dando subsídios para um pensamento mais flexível e liberado das armadilhas restritivas e conservadoras.
O evento conta com a participação de um "grupo de artistas" plásticos, visuais, Djs, Vjs e performers que têm se encontrado semanalmente para discussões e criações sobre o tema do erotismo, e tem por princípio a criação de ambientações cênicas, obras visuais, como fotografia, filmes, vídeos, projeções, imersões, show erótico, culinária e drinks afrodisíacos, a fim de trazer ao público os sígnos e afetos que esse tema depreende.
ARTISTAS CONVIDADOS:
Ade Evaristo e Monaliza Silper
Alex Hamburguer
Alexandre Vogler
Dj André Amaral
Bia Veneu
Clayton Leite
Daniela Mattos
Fabiane Borges
Vj Fernando Timba
Jane Eloy e Natalie
Dj Jonas Ohlsson
Leo Videla
Vj Luiza Pimenta
Negrah e suzaninha
Rubens Pileggi
Sueli Farry
Viviane Rangel
PÚBLICO ALVO
Esperamos cerca de 400 pessoas entre artistas, críticos de arte, intelectuais, produtores, profissionais do sexo, acadêmicos,visinhos do bananeiras, interessados no tema erótico, glbtt, etc.
PROGRAMA: Performances, vídeos, filmes, apresentações, som, instalações, comidas e bebidas afrodisíacas, etc.
RETORNO DE MÍDIA: Envio de folder e texto conceitualizando o evento para revistas, jornais online e impressos, tv e rádio. Mídia dentro do circuito da arte contemporânea.
ORGANIZAÇÃO:
Beatriz Veneu (beaveneu@gmail.com) (021) 22212402
Leonardo Videla (leovidela@gmail.com) (021) 22212402
Fabiane Borges catadores@gmail.com - (021) 94420532
Rubens Pileggi (pileggisa@gmail.com) – (021) 81718059
Viviane Rangel (viviane.rangel@gmail.com) (021) 81555526
CENAS DO EROTICOMIA
segunda-feira, 29 de outubro de 2007
As passarelas passeatas da DASPU
As passarelas passeatas da DASPU
Por Elaine Bortolanza
Sexta-feira, 16 de dezembro de 2005, Praça Tiradentes: eu não estava vestida com um parangolé, mas era como se estivesse. Me sentia como uma asa-delta em êxtase. Foi um momento histórico para o movimento de prostitutas. A Praça Tiradentes, que também é do povo, de povo estava lotada naquela linda sexta-feira. Estava linda, colorida! Colegas putas voavam com parangolés de muitas cores, de todas as cores, e forravam o chão de paralelepípedos da rua com pétalas de rosas. Pétalas para as putas pisarem no desfile de lançamento da DASPU. Em 1987, quando realizamos nosso primeiro encontro nacional, o nosso lema, lembrando Cartola, era: as rosas já falam. Passados quase 20 anos desse primeiro encontro, as putas desfilam a nossa moda pisando em rosas. Gabriela Leite1
Putas em êxtase vestida de parangolés2 na praça Tiradentes. O sonho de Mondrian de que a arte se dissolveria na vida como um gesto empreendido pelo corpo, através da linguagem táctil davida3 ressoava nesse dia marcante para o movimento das prostitutas e anunciava o lançamento da daspu.
Proposição de uma linguagem táctil do programa da vida: o tato como elemento imprescindível nos modos de subjetivação do ser. Tocar no seio da linguagem, jogo lúdico e político que penetra mundos aparentemente opostos, como moda e prostituição, pornografia e ação política, sexualidade e resistência, arte e vida. Não uma grife para definir padrões e tendências da moda, mas sim abrir por meio da linguagem e da sexualidade uma brecha para as putas falaram por si mesmas. Deixar falar a nudez do desejo.
A daspu é um agenciamento coletivo criado para dar conta da configuração contemporânea dos desafios próprios à ação política do movimento das prostitutas. Multiplicidade de linguagens e sentidos que a prostituição e a palavra puta ganha ao transitar por espaços completamente dissociados da pornografia.
Quando as putas desfilam nos locais de prostituição ou nos espaços freqüentados por artistas e pessoas ligadas ao mundo da moda, de uma certa maneira, há um estranhamento provocado pela irrupção de um gesto pornográfico fora do campo da prostituição. Esse estranhamento explicita duas dimensões: a figura da top model como modelo de sexualidade feminina, sexualidade essa extremamente instrumentalizada e ao mesmo tempo tomada como referência e a figura do padrão feminino da elite econômica brasileira, completamente identificada com o padrão internacional da moda, representada pela grife daslu. A presença da puta no campo da moda explicita essa instrumentalização da sexualidade feminina, ao mesmo tempo em que funciona como uma espécie de avesso.
A figura da puta desfilando nas passarelas off das semanas de moda provoca um embaralhamento dos modelos da sexualidade feminina, de tal forma que não há mais como identificar quem é puta e quem não é. Mais do que isso, há um deslocamento intenso dos espaços até então reconhecidos como o lugar das lutas políticas. São forças de resistência se infiltrando nos vacúolos do capitalismo contemporâneo e provocando torções e distorções nos modos como o movimento social vem atuando.
Transgressão dos limites operando exatamente na nossa sexualidade, liberando assim a linguagem do discurso dizível e calculado pelas amarras do poder. A transgressão é um gesto relativo ao limite. Difícil apreender essa linguagem, já que ela se expressa no jogo dos limites e da transgressão, e não cessa de recomeçar a transpor uma linha que novamente recai no limite, interrompendo o jogo e recuando para um horizonte intransponível.4
A moda das putas não está na roupa, mas na excitação de algo que está entorpecido na sexualidade, no desejo, e que se expressa através de cenas “eróticas” que nos dominam e nos imobilizam. Erotismo da moda. Revelação do aspecto interior da moda. Anti-moda, anti-modelo. Moda e modos de vida. Moda-plural. Intersecções da moda com outros campos e vetores. Deformação do movimento rígido e disciplinado das top-model. Multiplicidade de estéticas femininas. Formosura desmedida. Noite do corpo. Potência estética do prazer, gozo sensorial, desestabilização dos órgãos de sentido, incômoda moda5.
O desejo de vestir a daspu vai muito além da vontade de consumir a marca. Há um desejo de compartilhar a linguagem dos gestos pornográficos, as fantasias, o erotismo, os prazeres da noite. Moda como gesto e não como discurso. É como se abrisse um possível, a partir da tensão entre moda e ação política, moda e pornografia, padronização e diferenciação.
As passarelas-passeatas da daspu passeiam pelos espaços sagrados da moda reinventando atos estéticos como configurações da experiência pornográfica, suscitando novos modos de sentir e induzindo novas formas da subjetividade política. A utilização de um signo máximo do capitalismo servindo de passarela para novas expressões políticas.
A primeira coleção da daspu teve como tema o universo dos caminhoneiros e a forma como a prostituição se relaciona com esse universo. Inspirada neste universo, a coleção ganhou um nome insinuante, ao mesmo tempo em que anunciava a entrada das prostitutas no mundo da moda: daspu na pista: BR 69.
Desfile-performance das putas que entraram na pista 69 com musculosos borracheiros, caminhoneiros e mulheres de outras profissões. Putas esbarravam nos pneus, sujas de graxa, agarradas aos borracheiros e caminhoneiros.
Intervenção cênica que extrapola a performance puramente estética, porque atinge a dimensão ética e política, colocando em cena a experiência existencial e cultural das prostitutas, ao mesmo tempo em que encena a militância das prostitutas, ocupando cada vez mais os espaços do cotidiano.
No Clube Glória, antiga igreja localizada no Bexiga, bairro popular da capital de São Paulo, desfilaram prostitutas da Rua Augusta, psicólogas e pesquisadoras. Um devir-puta percorria os camarins, numa agitação que extrapolava as tentativas de controle da organização do evento. As putas-modelos compartilhavam entre si um desejo incontrolável de intimidade com o gesto pornográfico. Batons borrados, marcas de batom pelo corpo, seios insinuantes, bundas exuberantes, quadris à mostra, movimentos sinuosos e sensuais. Durante os desfiles, gritos, ruídos, aplausos, risos misturavam-se aos fluídos orgásticos da intervenção cênica.
Desfile-intervenção que excede a efemeridade dos desfiles tradicionais. Desfile-que-não-termina, que reverbera para além do campo da moda, contagiando as esferas de poder do campo das políticas públicas, reinventando ações políticas.
As passarelas da moda como espaço para as novas expressões políticas desloca completamente a ação política do plano da militância esvaziada, ao invés de entregar panfletos e proferir palestras, as putas falam desfilando, afeto desmedido e ambíguo, fora dos contextos de atuação já estabelecidos. Ao mesmo tempo, elas compartilham ao livre uso dos homens o “gesto roubado” e ameaçado o tempo todo pelos mecanismos de poder da sexualidade. Gesto que irrompe no limite da linguagem. Linguagem silenciosa e sem intimidade com o exterior. Linguagem trêmula e intumescida de vazio, sem proteção nem retenção, desnuda, plena, atrativa.
Elaine Bortolanza atua como pesquisadora na área de saúde e sexualidade, atualmente é consultora da Unesco. Desenvolveu trabalho de criação e apresentação de moda com profissionais do sexo da cidade Corumbá. Mestre em Psicologia no Núcleo de Subjetividades Contemporâneas - PUC-SP com a pesquisa Pornografia dos afectos: gestos, estética e erotismo. email: ebortolanza@yahoo.com
Por Elaine Bortolanza
Sexta-feira, 16 de dezembro de 2005, Praça Tiradentes: eu não estava vestida com um parangolé, mas era como se estivesse. Me sentia como uma asa-delta em êxtase. Foi um momento histórico para o movimento de prostitutas. A Praça Tiradentes, que também é do povo, de povo estava lotada naquela linda sexta-feira. Estava linda, colorida! Colegas putas voavam com parangolés de muitas cores, de todas as cores, e forravam o chão de paralelepípedos da rua com pétalas de rosas. Pétalas para as putas pisarem no desfile de lançamento da DASPU. Em 1987, quando realizamos nosso primeiro encontro nacional, o nosso lema, lembrando Cartola, era: as rosas já falam. Passados quase 20 anos desse primeiro encontro, as putas desfilam a nossa moda pisando em rosas. Gabriela Leite1
Putas em êxtase vestida de parangolés2 na praça Tiradentes. O sonho de Mondrian de que a arte se dissolveria na vida como um gesto empreendido pelo corpo, através da linguagem táctil davida3 ressoava nesse dia marcante para o movimento das prostitutas e anunciava o lançamento da daspu.
Proposição de uma linguagem táctil do programa da vida: o tato como elemento imprescindível nos modos de subjetivação do ser. Tocar no seio da linguagem, jogo lúdico e político que penetra mundos aparentemente opostos, como moda e prostituição, pornografia e ação política, sexualidade e resistência, arte e vida. Não uma grife para definir padrões e tendências da moda, mas sim abrir por meio da linguagem e da sexualidade uma brecha para as putas falaram por si mesmas. Deixar falar a nudez do desejo.
A daspu é um agenciamento coletivo criado para dar conta da configuração contemporânea dos desafios próprios à ação política do movimento das prostitutas. Multiplicidade de linguagens e sentidos que a prostituição e a palavra puta ganha ao transitar por espaços completamente dissociados da pornografia.
Quando as putas desfilam nos locais de prostituição ou nos espaços freqüentados por artistas e pessoas ligadas ao mundo da moda, de uma certa maneira, há um estranhamento provocado pela irrupção de um gesto pornográfico fora do campo da prostituição. Esse estranhamento explicita duas dimensões: a figura da top model como modelo de sexualidade feminina, sexualidade essa extremamente instrumentalizada e ao mesmo tempo tomada como referência e a figura do padrão feminino da elite econômica brasileira, completamente identificada com o padrão internacional da moda, representada pela grife daslu. A presença da puta no campo da moda explicita essa instrumentalização da sexualidade feminina, ao mesmo tempo em que funciona como uma espécie de avesso.
A figura da puta desfilando nas passarelas off das semanas de moda provoca um embaralhamento dos modelos da sexualidade feminina, de tal forma que não há mais como identificar quem é puta e quem não é. Mais do que isso, há um deslocamento intenso dos espaços até então reconhecidos como o lugar das lutas políticas. São forças de resistência se infiltrando nos vacúolos do capitalismo contemporâneo e provocando torções e distorções nos modos como o movimento social vem atuando.
Transgressão dos limites operando exatamente na nossa sexualidade, liberando assim a linguagem do discurso dizível e calculado pelas amarras do poder. A transgressão é um gesto relativo ao limite. Difícil apreender essa linguagem, já que ela se expressa no jogo dos limites e da transgressão, e não cessa de recomeçar a transpor uma linha que novamente recai no limite, interrompendo o jogo e recuando para um horizonte intransponível.4
A moda das putas não está na roupa, mas na excitação de algo que está entorpecido na sexualidade, no desejo, e que se expressa através de cenas “eróticas” que nos dominam e nos imobilizam. Erotismo da moda. Revelação do aspecto interior da moda. Anti-moda, anti-modelo. Moda e modos de vida. Moda-plural. Intersecções da moda com outros campos e vetores. Deformação do movimento rígido e disciplinado das top-model. Multiplicidade de estéticas femininas. Formosura desmedida. Noite do corpo. Potência estética do prazer, gozo sensorial, desestabilização dos órgãos de sentido, incômoda moda5.
O desejo de vestir a daspu vai muito além da vontade de consumir a marca. Há um desejo de compartilhar a linguagem dos gestos pornográficos, as fantasias, o erotismo, os prazeres da noite. Moda como gesto e não como discurso. É como se abrisse um possível, a partir da tensão entre moda e ação política, moda e pornografia, padronização e diferenciação.
As passarelas-passeatas da daspu passeiam pelos espaços sagrados da moda reinventando atos estéticos como configurações da experiência pornográfica, suscitando novos modos de sentir e induzindo novas formas da subjetividade política. A utilização de um signo máximo do capitalismo servindo de passarela para novas expressões políticas.
A primeira coleção da daspu teve como tema o universo dos caminhoneiros e a forma como a prostituição se relaciona com esse universo. Inspirada neste universo, a coleção ganhou um nome insinuante, ao mesmo tempo em que anunciava a entrada das prostitutas no mundo da moda: daspu na pista: BR 69.
Desfile-performance das putas que entraram na pista 69 com musculosos borracheiros, caminhoneiros e mulheres de outras profissões. Putas esbarravam nos pneus, sujas de graxa, agarradas aos borracheiros e caminhoneiros.
Intervenção cênica que extrapola a performance puramente estética, porque atinge a dimensão ética e política, colocando em cena a experiência existencial e cultural das prostitutas, ao mesmo tempo em que encena a militância das prostitutas, ocupando cada vez mais os espaços do cotidiano.
No Clube Glória, antiga igreja localizada no Bexiga, bairro popular da capital de São Paulo, desfilaram prostitutas da Rua Augusta, psicólogas e pesquisadoras. Um devir-puta percorria os camarins, numa agitação que extrapolava as tentativas de controle da organização do evento. As putas-modelos compartilhavam entre si um desejo incontrolável de intimidade com o gesto pornográfico. Batons borrados, marcas de batom pelo corpo, seios insinuantes, bundas exuberantes, quadris à mostra, movimentos sinuosos e sensuais. Durante os desfiles, gritos, ruídos, aplausos, risos misturavam-se aos fluídos orgásticos da intervenção cênica.
Desfile-intervenção que excede a efemeridade dos desfiles tradicionais. Desfile-que-não-termina, que reverbera para além do campo da moda, contagiando as esferas de poder do campo das políticas públicas, reinventando ações políticas.
As passarelas da moda como espaço para as novas expressões políticas desloca completamente a ação política do plano da militância esvaziada, ao invés de entregar panfletos e proferir palestras, as putas falam desfilando, afeto desmedido e ambíguo, fora dos contextos de atuação já estabelecidos. Ao mesmo tempo, elas compartilham ao livre uso dos homens o “gesto roubado” e ameaçado o tempo todo pelos mecanismos de poder da sexualidade. Gesto que irrompe no limite da linguagem. Linguagem silenciosa e sem intimidade com o exterior. Linguagem trêmula e intumescida de vazio, sem proteção nem retenção, desnuda, plena, atrativa.
Elaine Bortolanza atua como pesquisadora na área de saúde e sexualidade, atualmente é consultora da Unesco. Desenvolveu trabalho de criação e apresentação de moda com profissionais do sexo da cidade Corumbá. Mestre em Psicologia no Núcleo de Subjetividades Contemporâneas - PUC-SP com a pesquisa Pornografia dos afectos: gestos, estética e erotismo. email: ebortolanza@yahoo.com
EM VEZ DE GANIR PELO NADA FODO CONTIGO
em vez de ganir pelo nada fodo contigo
Por Hilan Bensunsan
Chove barulhos lentos, minha pele cisca pelos meus nervos sem dor, sem dó e eu não tenho nenhuma resistência. Insistência pura, puta vontade de engolir fogo com as dobras do cotovelo, sem o velho coturno com cílios dos olhos, com a virilha, com a buceta funda desassossegada e eu tremida, vibrada, gemida, imaculada, prometida, ajambrada, película do fio do lábio grosso por linhas tortas. Vem sopro, vem espírito santo, vem calda quente, faz da minha barriga um papel laminado amassado apertado pelos dedos com unhas marcadas pela terra que fica dentro da fenda entre a protuberância e a reentrância em cada unha, uma marca côncava, aberta para dentro das mãos como se esperasse elas em um cadinho de barro. Chovia barulhos lentos, eu sozinha com meu cobertor que produzia calor em forma de minhocas pequenas, quase como larvas, quase como pequenas luzes azuis em uma estrada deserta – o padrão dos azulejos em que eu perco meus olhos, meus olhos fechados, eu encolhida e encaracolada, envolvida embriagada das cores do azulejo sobre a luz branca, o cimento entre os azulejos faz frio, chove barulhos lentos, minha vagina suga espraiada, escondida, esmagada, enrijecida entre minhas duas pernas que não têm nenhuma resistência e que fazem contato uma com a outra, dobra por dobra, as carnes dos meu ouvido roçando o travesseiro gordo, abundante, firme, gentil, eu agachada sobre as pilastras finas da cama, mas travestida, estendida, acobertada, esguia mas a ermo, sem beira, sem atenção, sem tema e sem coceira. Escuro, dentro da minha casa, dentro do meu cobertor, abrigante, bruto, meus dedos encolhidos com a cabeça cheia. Minha cabeça é um córrego esguio, um leito de pedras pontudas que são vítimas das minhas faltas de coragem, que são as vítimas das mucosas das minhas gengivas vermelhas sendo roçadas pela língua áspera do Lúcio, que é uma vítima dos meus braços que abraçam como eu prendo este cobertor e o esmago nos meus seios como se não tivéssemos pele e depois soltam, soltam porque são vítimas do musgo que deixo escorregando pelo chão depois que a paixão me devora e vai embora, vítima da água gelada que corre entre os meus desejos, que são vítimas do leito de pedras pontudas dentro da meu cerebelo íntimo que gane pelo nada. Dentro da minha boca duas uvas ovais, quase sem caldo, o suco grudado na pele e de dentro delas sai um vento, vindo de uma eternidade entrona, ouriçado, um vento que era súbito e sórdido e sólido e gentil.
Minha garganta grunhiu uns semitons fora da escala como se escarrasse uma bola de sebo que entrou pela carruagem errada, minha garganta comprimida, de esticada se fechou como se minha cabeça fosse entrar para dentro dos espaço leviano entre meus dois peitos – como se eu fosse um cisne adentrado por Leda, enganosa e entregue a sorte de uma ave que eu encorporava pelo pescoço, uma ave de pescoço ereto e eu embolotada, entulhada sobre meus peitos fechados como se quisessem possuir sozinhos as veias em torno do meu coração ríspido, higiênico. Minha carótida vibrava como se fosse ela o indicador luminoso do meu orgasmo – todo o meu corpo se entregava a veia, ao sangue espremido, apertado e que borbulhava; berrei como se a legião dos anjos me escutasse o prazer que é decibel do terrível que posso suportar com minhas unhas rasgando o colchão, o cobertor e o chão e minha nuca nua exposta a janela do quarto de onde me vê o vizinho, inútil, singelo e imundo. Nuca, o pedaço que eu queria mordido, mastigado do meu corpo que espera, espera pelo delírio que meus sentidos arrancam das dobras de Deus, das sobras daquele vento cisreal que ejaculou em um dia o espírito santo; eu tosca, devota, cavala d’água em disparada sem punhal, cega e sonâmbula e esdrúxula – amando inteira, minhas palavras róseas que sangram e de dentro dos cobertores, de dentro das minhas partes cobertas aquele mijo com cheiro de ervas, de frutas, de uvas, de cerejas do éden misturado com minha gosma G e eu não berrava mais, mas queria mais da eternidade genérica, esférica, angélica, lisérgica, epidérmica, gutural. Queria e passou aquilo – meus lábios grandes enfiados por um tufão já nada ganiam, tubilhavam, uma pétala amarela balançando debaixo de uma lufada que ele foi embora e fez rápido; um touro na seda, estou sozinha todas estas vinte-e-quatro horas sem o santo graal roçando em torno do meu umbigo. Só a chuva passou aritmética, respirava profundo como se dentro do meu corpo já não houvessem armas.
Por Hilan Bensunsan
Chove barulhos lentos, minha pele cisca pelos meus nervos sem dor, sem dó e eu não tenho nenhuma resistência. Insistência pura, puta vontade de engolir fogo com as dobras do cotovelo, sem o velho coturno com cílios dos olhos, com a virilha, com a buceta funda desassossegada e eu tremida, vibrada, gemida, imaculada, prometida, ajambrada, película do fio do lábio grosso por linhas tortas. Vem sopro, vem espírito santo, vem calda quente, faz da minha barriga um papel laminado amassado apertado pelos dedos com unhas marcadas pela terra que fica dentro da fenda entre a protuberância e a reentrância em cada unha, uma marca côncava, aberta para dentro das mãos como se esperasse elas em um cadinho de barro. Chovia barulhos lentos, eu sozinha com meu cobertor que produzia calor em forma de minhocas pequenas, quase como larvas, quase como pequenas luzes azuis em uma estrada deserta – o padrão dos azulejos em que eu perco meus olhos, meus olhos fechados, eu encolhida e encaracolada, envolvida embriagada das cores do azulejo sobre a luz branca, o cimento entre os azulejos faz frio, chove barulhos lentos, minha vagina suga espraiada, escondida, esmagada, enrijecida entre minhas duas pernas que não têm nenhuma resistência e que fazem contato uma com a outra, dobra por dobra, as carnes dos meu ouvido roçando o travesseiro gordo, abundante, firme, gentil, eu agachada sobre as pilastras finas da cama, mas travestida, estendida, acobertada, esguia mas a ermo, sem beira, sem atenção, sem tema e sem coceira. Escuro, dentro da minha casa, dentro do meu cobertor, abrigante, bruto, meus dedos encolhidos com a cabeça cheia. Minha cabeça é um córrego esguio, um leito de pedras pontudas que são vítimas das minhas faltas de coragem, que são as vítimas das mucosas das minhas gengivas vermelhas sendo roçadas pela língua áspera do Lúcio, que é uma vítima dos meus braços que abraçam como eu prendo este cobertor e o esmago nos meus seios como se não tivéssemos pele e depois soltam, soltam porque são vítimas do musgo que deixo escorregando pelo chão depois que a paixão me devora e vai embora, vítima da água gelada que corre entre os meus desejos, que são vítimas do leito de pedras pontudas dentro da meu cerebelo íntimo que gane pelo nada. Dentro da minha boca duas uvas ovais, quase sem caldo, o suco grudado na pele e de dentro delas sai um vento, vindo de uma eternidade entrona, ouriçado, um vento que era súbito e sórdido e sólido e gentil.
Minha garganta grunhiu uns semitons fora da escala como se escarrasse uma bola de sebo que entrou pela carruagem errada, minha garganta comprimida, de esticada se fechou como se minha cabeça fosse entrar para dentro dos espaço leviano entre meus dois peitos – como se eu fosse um cisne adentrado por Leda, enganosa e entregue a sorte de uma ave que eu encorporava pelo pescoço, uma ave de pescoço ereto e eu embolotada, entulhada sobre meus peitos fechados como se quisessem possuir sozinhos as veias em torno do meu coração ríspido, higiênico. Minha carótida vibrava como se fosse ela o indicador luminoso do meu orgasmo – todo o meu corpo se entregava a veia, ao sangue espremido, apertado e que borbulhava; berrei como se a legião dos anjos me escutasse o prazer que é decibel do terrível que posso suportar com minhas unhas rasgando o colchão, o cobertor e o chão e minha nuca nua exposta a janela do quarto de onde me vê o vizinho, inútil, singelo e imundo. Nuca, o pedaço que eu queria mordido, mastigado do meu corpo que espera, espera pelo delírio que meus sentidos arrancam das dobras de Deus, das sobras daquele vento cisreal que ejaculou em um dia o espírito santo; eu tosca, devota, cavala d’água em disparada sem punhal, cega e sonâmbula e esdrúxula – amando inteira, minhas palavras róseas que sangram e de dentro dos cobertores, de dentro das minhas partes cobertas aquele mijo com cheiro de ervas, de frutas, de uvas, de cerejas do éden misturado com minha gosma G e eu não berrava mais, mas queria mais da eternidade genérica, esférica, angélica, lisérgica, epidérmica, gutural. Queria e passou aquilo – meus lábios grandes enfiados por um tufão já nada ganiam, tubilhavam, uma pétala amarela balançando debaixo de uma lufada que ele foi embora e fez rápido; um touro na seda, estou sozinha todas estas vinte-e-quatro horas sem o santo graal roçando em torno do meu umbigo. Só a chuva passou aritmética, respirava profundo como se dentro do meu corpo já não houvessem armas.
BRENDA COMENDO DAVID
brenda comendo david
Por Hilan Bensunsan
Nem gostava de brincar de bonecas – mas apalpava elas, as esfregava na genitália, queria comer elas todas, enfiar alguma coisa gigante em algum buraco escondido delas e faze-las dar gemidinhos. Nem gostava de brincar de metralhadoras, apenas apalpava cada uma delas entre as pernas querendo que aquela força metálica, aquela solidez firme, aquela capacidade de ser mau elemento estivesse enfiada na sua boca ou em algum buraco escondido entre suas pernas – algum buraco que nunca soube para que serve. Com oito meses aconteceu-lhe uma fimose pelo caralho e algum profissional de branco o descaralhou em oitenta porcento. Mãe e pai, vendo a abjeção solta entre as pernas de David, sairam catando profissionais de branco. Primeiro veio um homenzarrão aberrante com os cabelos delgados e ofereceu, como quem oferece chocolates a uma criança, uma vagina completa; e ofereceu com sua parca psicologia dos pré-adolescentes – algum manual mal lido nos tempos de escola deve ter sido tudo o que o John Money deixou penetrado pela sua cabeça acerca os rostos com espinhas – ele ofereceu uma vagina completa:
- Você vai poder ser mãe com esta vaginona, vai poder ser uma mulher de verdade, sem receios, ter uma família e um homem pra chamar de seu...
- Eu prefiro não.
Money chamou mesmo o irmão gêmeo de Brenda ou de David e pediu que ele ficasse em uma posição de quem estava comendo uma buceta imaginada entre as pernas do irmãozinho. A irmãzinha, e seu parceiro que deveria enfiar a tal trosoba, ficaram tremendo, assustados, tremendo, sem respiração. Money chamou uma legião de beduínos sexuais para mostrar a importância de ser mulher com toda sanha, toda biologia. David, embaixo de Brenda, pensava: é só o que eu tenho entre as pernas que é digno de amor? Sou um perdedor.
- Eu prefiro não.
Brenda disse que não punha xoxota – mas assim, no meio entre o que entra e no que entra não dá pra ficar; os pais trataram de encontrar um jeito de eliminar aquela genitália sem órgãos. Levaram Brenda a um outro hospital, outro avental, outra teoria geral acerca da cabeça, do púbis, da casinha e do carrinho: Milton Diamond disse que punha pau em Brenda e ela poderia brincar com suas escopetas de plástico sem destoar. Meto pinto na menina, Diamond disse, e ela fica como veio ao mundo antes de ser fudida pelo primeiro médico. Um pau pra Brenda, ele anunciou, e David, com os olhos espremidos:
- Eu prefiro não.
É o que é natural para David, veio loquaz um doutor, Colapinto: com o pinto nela, ela volta as suas origens, a como a Mãezona Natureza, colossuda, cheia de planos, a fez. Colapinto dizia que foi cruel, cruel tentar meter uma cabeça de menininha na Brenda só porque ela não tinha mais o membro – membro se contrói, ele fazia, cabeça ninguém contrói. Uma vez que David nasceu David, não adianta tentar vesti-lo com cuequinhas rosas, uma menininha não se constrói. Puseram um falo na Brenda:
- Eu prefiro não.
Nos errantes da vida, estas calamidades se aceleram com uma trouxa branca para a morte com um negrinho escondido embaixo dela. Chegou quem você esperava – agora é só se recompor. Ajeita o cuecão, enfia a calcinha no rego; faz de conta que você não é abjeto, é naturalmente homem, mulher ou calango. Não fique plácida, ajude a revisar todas as notas comparadas do DSM-5 como se fossemos feitos de órgãos em bom funcionamento.
- Eu nem prefiro isso.
Por Hilan Bensunsan
Nem gostava de brincar de bonecas – mas apalpava elas, as esfregava na genitália, queria comer elas todas, enfiar alguma coisa gigante em algum buraco escondido delas e faze-las dar gemidinhos. Nem gostava de brincar de metralhadoras, apenas apalpava cada uma delas entre as pernas querendo que aquela força metálica, aquela solidez firme, aquela capacidade de ser mau elemento estivesse enfiada na sua boca ou em algum buraco escondido entre suas pernas – algum buraco que nunca soube para que serve. Com oito meses aconteceu-lhe uma fimose pelo caralho e algum profissional de branco o descaralhou em oitenta porcento. Mãe e pai, vendo a abjeção solta entre as pernas de David, sairam catando profissionais de branco. Primeiro veio um homenzarrão aberrante com os cabelos delgados e ofereceu, como quem oferece chocolates a uma criança, uma vagina completa; e ofereceu com sua parca psicologia dos pré-adolescentes – algum manual mal lido nos tempos de escola deve ter sido tudo o que o John Money deixou penetrado pela sua cabeça acerca os rostos com espinhas – ele ofereceu uma vagina completa:
- Você vai poder ser mãe com esta vaginona, vai poder ser uma mulher de verdade, sem receios, ter uma família e um homem pra chamar de seu...
- Eu prefiro não.
Money chamou mesmo o irmão gêmeo de Brenda ou de David e pediu que ele ficasse em uma posição de quem estava comendo uma buceta imaginada entre as pernas do irmãozinho. A irmãzinha, e seu parceiro que deveria enfiar a tal trosoba, ficaram tremendo, assustados, tremendo, sem respiração. Money chamou uma legião de beduínos sexuais para mostrar a importância de ser mulher com toda sanha, toda biologia. David, embaixo de Brenda, pensava: é só o que eu tenho entre as pernas que é digno de amor? Sou um perdedor.
- Eu prefiro não.
Brenda disse que não punha xoxota – mas assim, no meio entre o que entra e no que entra não dá pra ficar; os pais trataram de encontrar um jeito de eliminar aquela genitália sem órgãos. Levaram Brenda a um outro hospital, outro avental, outra teoria geral acerca da cabeça, do púbis, da casinha e do carrinho: Milton Diamond disse que punha pau em Brenda e ela poderia brincar com suas escopetas de plástico sem destoar. Meto pinto na menina, Diamond disse, e ela fica como veio ao mundo antes de ser fudida pelo primeiro médico. Um pau pra Brenda, ele anunciou, e David, com os olhos espremidos:
- Eu prefiro não.
É o que é natural para David, veio loquaz um doutor, Colapinto: com o pinto nela, ela volta as suas origens, a como a Mãezona Natureza, colossuda, cheia de planos, a fez. Colapinto dizia que foi cruel, cruel tentar meter uma cabeça de menininha na Brenda só porque ela não tinha mais o membro – membro se contrói, ele fazia, cabeça ninguém contrói. Uma vez que David nasceu David, não adianta tentar vesti-lo com cuequinhas rosas, uma menininha não se constrói. Puseram um falo na Brenda:
- Eu prefiro não.
Nos errantes da vida, estas calamidades se aceleram com uma trouxa branca para a morte com um negrinho escondido embaixo dela. Chegou quem você esperava – agora é só se recompor. Ajeita o cuecão, enfia a calcinha no rego; faz de conta que você não é abjeto, é naturalmente homem, mulher ou calango. Não fique plácida, ajude a revisar todas as notas comparadas do DSM-5 como se fossemos feitos de órgãos em bom funcionamento.
- Eu nem prefiro isso.
quinta-feira, 25 de outubro de 2007
Esquizotrans
Infidelidade e descentralizacão
por Fabiane Borges e Hilan Bensunsan
Toda a brancura da areia junto com o verde e o azul do rio, uns pingos de neurose edipiana e confissões solícitas acompanhadas de girlie drinks, os temores trêmulos dos dedos no teclado do laptop, as pequenas ilhazinhas de areia do pensamento confinado. Ele próprio ilha, o pensamento, estendendo-se feito bracinhos para alcançar o outro lado, bracinhos de ponte. O outro lado usava três tornozeleiras, cabeça esguia como um flamboyant com a consciência de cada uma de suas flores no dia mais seco do ano, e o outro lado molhado e apoiando os pés na areia, as mãos espalmadas na praia e o quadril levantando e abaixando como uma versão acelerada das marés que enchem o rio de sal, e o rio que o põe para fora – o areal precisa de um dia inteiro, os bracinhos levantavam o torso em poucos segundos infiéis; era um desejo de infidelidade naqueles movimentos ondulatórios ou era apenas um jeito manhoso de bolinar o vento sem parar de respirar? Não se tratavam de braços nem de pontes, era o bolinar que estava em jogo. O lançar-se era um assassinato diário, que treinava junto aos seus 150 abdominais. Assassinava as etapas como uma serial killer altiva, sem escrúpulo e cheia de vícios, de hábitos de subir em coqueiros cumpridos e arrancar o triunfo verde. Nem dragão nem serpente no braço, talvez a coceira do piolho enjoado da cabeleira gorda, que fez morada na linha obscura do cotovelo. Ali guardava o tic da presença e da saudade da leoa. Poli-tic de leoas a toda, cavalas soltas domesticadas apenas nos descampados onde param e tremem e soltam seus abdominais com grunhidos, estridentes, foscos, guturais, berros do diafragma cheio de fumaça amarela de ervas gratinadas, preparadas para matar uma vida a cada dia, as vidas doentias, as vidas que não adiavam nada, as vidas que enchiam as outras vidas de obediência de vida. Ela ranhava ralava os ossos no chão e pulava de uma só vez imitando o ianomâmi que, longe dos olhos organizados, não-governamentais, testemunhas, lhe tirou uma casquinha servindo-lhe de banco para que ela lhe sentasse e arreganhasse as pernas; ainda que dela ele não tenha tirado nenhuma roupa, alimentou cinco das suas pulsões desgovernadas. Um barulho, um barulho, uma rola, um entulho, uma sapa articulada e frouxa.
Não havia como negar sua incongruente falta de estilo métrico, tinha a disritmia como pressuposto endérmico. Ladrava feito gato gago ao dizer mi-au... sentia a angústia no meio da pupila dos olhos, era nesse redondo preto que sentia a infiniteza de Spinoza que dizia que a memória não é um dote do atributo da mente – talvez uma potência dos corpos que colaborava para o sal grudar pela pele que guarda em cada grão-poro uma semente de nostalgia; na pele abaixo dos seus pentelhos nunca raspados aqueles gritinhos rápidos e constantes, sua voz feita de minaretes alcançando os agudos.
Uma vez, em Taxim, entre duas mesquitas o homem foi comprar cuecas e esbarraram em um pátio onde a voz do muazín ali ao lado estava gravada em fitas cassetes – aquele homem que já tirou piolhos do cotovelo estava com o senhor Kusku que lhe implorou: não escute esta música jamais enquanto você estiver fazendo amor. Ou não faça amor.
O medo do homem cresceu preto como cachimbo de cipó. Furava-se em devaneios persecutórios alimentando dessa forma, sua sensibilidade para a escrita. A escrita seu refúgio e sua ponte. No mais cantarolava uma cantiga antiga sionista e obsoleta. Como pensador preparava a rede para o corpo repousar, e assustava-se com a cotidianidade da neurose, meio esquizo meio paranóide; essas denominações todas da descentralização. Tirar o centro da cabeça, do distrito federal, das grandiosas neuroses ... Deveria haver outro modo, outra insígnia, o noise tinha harmonia? É disso que estamos falando? Provavelmente não, o assunto é infidelidade. A belezura da criança brincando com a mãe gorda com a barriga cortada e um pai esguio mentindo felicidade atraiam em nada o bolinar das teclas. A promessinha fracassada do núcleo parental lhe doía a menina do olho.
Ela, a cadela de lábios grandes, grossos, absolvente todo mês, seios que entumecem de frio, racha e toda aquela buraqueira no meio da horta, as vezes colhida e raspada – soltava umas palavras deselegantes e queria o fora, queria muito fora, quem precisa de fazedores de verdade? Cadê eles, já foram feitos? Ela não queria adequar, e eles pediam do alto de um pedestal feito de pelanca da nuca rebaixada fluminense das massas correndo atrás da macaxeira mais barata, eles pediam com ordens do dia: adecue, deságüe em nós, evacue sua frasezinha solta e adecue – não adianta patois, não tente fugir dos fatos com palavras sem ordem, sua betamax sem lente de milímetros, bête noir e querendo ser toda site specific; pessoa ardente, engula o que você chupou, a cabeça foi feita para copiar as reentrâncias e as protuberâncias dos corpos e da areia, com a boca sempre pronta para fechar. E ela, nada disso, sentia umas mãos feitas de cinco dedos intrusos sobre a pele que cobre seus órgãos vitais, sobre seus ombros lambuzados de um creme que bronzeia de sol e protege do sol, e as mãos desciam e apertavam-lhe vísceras e ela apertava os botões O. N. G., O. N. G., O. N. G., O. N. G., O. N. G., O. N. G.,
As esperanças da humanidade nesta fase tardia do capitalismo tardio – sempre atrasado – estavam em alguma O. N. G. que vai chegar e nos livrar das mãos intrusas, despertar os mortos do monte de oliveira, dar uma martelada em uma cúpula dourada fora do lugar e trazer a paz para nossas barrigas. E a O. N. G não vem, a O. N. G nem telefona. Um gole de whisky com cocacola. Põe, põe, põe os dedos no teclado e solta.
Mas as ternuras além de escarros são também pontudas flechas que caçam as vontades de subida. E sobe crente e dócil a duna de areia e depois atira-se nos pequenos amontoados de chuva. Escolhe-se a água conforme a boa vontade e o preço. O pianista insiste na melódica de beethoven enquanto rouba os sons de tudo que lhe soa bem. Ladrão de sons e sonhos.
Quando deixamos discorrer sobre infidelidades aparecem jorrados nos ladrilhos os ladrões, pelo menos um ladrão de sonho, bate do bolso de trás do amante querendo estar alegre com o boi umas quarenta palavras e seus adereços, ele geme outra vez seus sonhos descritos definidamente em um boletim de ocorrência no meio da noite no maranhão – era o acordeão da Dona Cândida, bebendo whisky com cocacola.
Eu apenas beijei a boca de um fato ardido, coloquei a língua toda cheia de falta de sonho dentro de sua boca, e grudei nos seus lábios como quando caçamos homem, mulher e javali e beijamos para fazer da vida, comida. Sou apenas um pedaço de lua devorado por um leão com minha boca inteira colada naquele fato maciço, macio de lábios, mastrodonte nos meus dentes e eu lambendo toda aquela gengiva aberta com uma felicidade mentida, que fatos feitos de argila seca não podem suportar, eles racham; mas o fato desmilinguia quando eu subitamente largava sua boca e estalava os meus grande lábios caídos. A pele da Dona Cândida é cheia de poros e tem uma mordida na nádega direita que ela deitou com o fato, mas não dormiu com o diabo. Sabe por que é que a guria que tem medo de ter medo do mar vê o filme do Filisberto doze vezes?
Lá no squat, nos tempos em que ela se sentia uma Xuxa entre os desabrigados, gritava o que mais podemos fazer e cortava com culhões os grilhões com os dentes caninos, ela derramou meio litro de sexo com xarope de hortelã, acidentalmente nas pernas grossas da mulher do empresário que gozou antes dela – muitas pessoas foram desalojadas ao som de uma opera que se ouve apenas com o clitóris. Mas a foca grande que já botou medo na Patrícia Finagaev saiu assobiando uma escuridão. Em qualquer parede de tijolo ela repousa a cabeça, ela quer se entregar quando amanhecer e virar um feto. Seria como uma garota jogando descentralizadamente confetes e infidelidades. Não, você não vai chegar ao fim disto, o fim de uma mistura de palavras desdonadas é feita de eu não devo nada a você, uma mordida na jugular que nunca desejou bocas perto – elas ofegam, elas babam, elas chupam – descentralize a corja toda e comece com teus primos, teus tios, teus pintos, teus filhos, teus pavorzinhos secretos, teus ossos, teus velhos slogans cheios de exageros, teus seios que chegam antes do resto de você, teus desejos prontos para serem alcançados com ruas mãos feitas de aço inoxidável; eles escapam pelo meio dos teus dedos, os dedos que eles usaram para entrar naquele quarto no meio da noite e as mãos coçando o queixo caçoando de queixas se arrastaram para perto das pernas grossas da esposa de outro homem e arremessou a boca contra ela como quem beijasse um fazedor de verdades. Perdão. Nada de centro, a esposa é só uma esposa – todo mundo é esposa, todo mundo é esposa cheia de curiosidade incontrolável por todos os homens que não são marido e nenhum homem é só marido. Um pequeno pássaro ocupa teus tímpanos depois da chuva cair, canivetes. Longa espera por um centro – três meninas que cresceram, todas com sardas e todas casadas. Você não vai enfiar esta carta na caixa de correio. Coma só a sobremesa, coma somente a cereja.
por Fabiane Borges e Hilan Bensunsan
Toda a brancura da areia junto com o verde e o azul do rio, uns pingos de neurose edipiana e confissões solícitas acompanhadas de girlie drinks, os temores trêmulos dos dedos no teclado do laptop, as pequenas ilhazinhas de areia do pensamento confinado. Ele próprio ilha, o pensamento, estendendo-se feito bracinhos para alcançar o outro lado, bracinhos de ponte. O outro lado usava três tornozeleiras, cabeça esguia como um flamboyant com a consciência de cada uma de suas flores no dia mais seco do ano, e o outro lado molhado e apoiando os pés na areia, as mãos espalmadas na praia e o quadril levantando e abaixando como uma versão acelerada das marés que enchem o rio de sal, e o rio que o põe para fora – o areal precisa de um dia inteiro, os bracinhos levantavam o torso em poucos segundos infiéis; era um desejo de infidelidade naqueles movimentos ondulatórios ou era apenas um jeito manhoso de bolinar o vento sem parar de respirar? Não se tratavam de braços nem de pontes, era o bolinar que estava em jogo. O lançar-se era um assassinato diário, que treinava junto aos seus 150 abdominais. Assassinava as etapas como uma serial killer altiva, sem escrúpulo e cheia de vícios, de hábitos de subir em coqueiros cumpridos e arrancar o triunfo verde. Nem dragão nem serpente no braço, talvez a coceira do piolho enjoado da cabeleira gorda, que fez morada na linha obscura do cotovelo. Ali guardava o tic da presença e da saudade da leoa. Poli-tic de leoas a toda, cavalas soltas domesticadas apenas nos descampados onde param e tremem e soltam seus abdominais com grunhidos, estridentes, foscos, guturais, berros do diafragma cheio de fumaça amarela de ervas gratinadas, preparadas para matar uma vida a cada dia, as vidas doentias, as vidas que não adiavam nada, as vidas que enchiam as outras vidas de obediência de vida. Ela ranhava ralava os ossos no chão e pulava de uma só vez imitando o ianomâmi que, longe dos olhos organizados, não-governamentais, testemunhas, lhe tirou uma casquinha servindo-lhe de banco para que ela lhe sentasse e arreganhasse as pernas; ainda que dela ele não tenha tirado nenhuma roupa, alimentou cinco das suas pulsões desgovernadas. Um barulho, um barulho, uma rola, um entulho, uma sapa articulada e frouxa.
Não havia como negar sua incongruente falta de estilo métrico, tinha a disritmia como pressuposto endérmico. Ladrava feito gato gago ao dizer mi-au... sentia a angústia no meio da pupila dos olhos, era nesse redondo preto que sentia a infiniteza de Spinoza que dizia que a memória não é um dote do atributo da mente – talvez uma potência dos corpos que colaborava para o sal grudar pela pele que guarda em cada grão-poro uma semente de nostalgia; na pele abaixo dos seus pentelhos nunca raspados aqueles gritinhos rápidos e constantes, sua voz feita de minaretes alcançando os agudos.
Uma vez, em Taxim, entre duas mesquitas o homem foi comprar cuecas e esbarraram em um pátio onde a voz do muazín ali ao lado estava gravada em fitas cassetes – aquele homem que já tirou piolhos do cotovelo estava com o senhor Kusku que lhe implorou: não escute esta música jamais enquanto você estiver fazendo amor. Ou não faça amor.
O medo do homem cresceu preto como cachimbo de cipó. Furava-se em devaneios persecutórios alimentando dessa forma, sua sensibilidade para a escrita. A escrita seu refúgio e sua ponte. No mais cantarolava uma cantiga antiga sionista e obsoleta. Como pensador preparava a rede para o corpo repousar, e assustava-se com a cotidianidade da neurose, meio esquizo meio paranóide; essas denominações todas da descentralização. Tirar o centro da cabeça, do distrito federal, das grandiosas neuroses ... Deveria haver outro modo, outra insígnia, o noise tinha harmonia? É disso que estamos falando? Provavelmente não, o assunto é infidelidade. A belezura da criança brincando com a mãe gorda com a barriga cortada e um pai esguio mentindo felicidade atraiam em nada o bolinar das teclas. A promessinha fracassada do núcleo parental lhe doía a menina do olho.
Ela, a cadela de lábios grandes, grossos, absolvente todo mês, seios que entumecem de frio, racha e toda aquela buraqueira no meio da horta, as vezes colhida e raspada – soltava umas palavras deselegantes e queria o fora, queria muito fora, quem precisa de fazedores de verdade? Cadê eles, já foram feitos? Ela não queria adequar, e eles pediam do alto de um pedestal feito de pelanca da nuca rebaixada fluminense das massas correndo atrás da macaxeira mais barata, eles pediam com ordens do dia: adecue, deságüe em nós, evacue sua frasezinha solta e adecue – não adianta patois, não tente fugir dos fatos com palavras sem ordem, sua betamax sem lente de milímetros, bête noir e querendo ser toda site specific; pessoa ardente, engula o que você chupou, a cabeça foi feita para copiar as reentrâncias e as protuberâncias dos corpos e da areia, com a boca sempre pronta para fechar. E ela, nada disso, sentia umas mãos feitas de cinco dedos intrusos sobre a pele que cobre seus órgãos vitais, sobre seus ombros lambuzados de um creme que bronzeia de sol e protege do sol, e as mãos desciam e apertavam-lhe vísceras e ela apertava os botões O. N. G., O. N. G., O. N. G., O. N. G., O. N. G., O. N. G.,
As esperanças da humanidade nesta fase tardia do capitalismo tardio – sempre atrasado – estavam em alguma O. N. G. que vai chegar e nos livrar das mãos intrusas, despertar os mortos do monte de oliveira, dar uma martelada em uma cúpula dourada fora do lugar e trazer a paz para nossas barrigas. E a O. N. G não vem, a O. N. G nem telefona. Um gole de whisky com cocacola. Põe, põe, põe os dedos no teclado e solta.
Mas as ternuras além de escarros são também pontudas flechas que caçam as vontades de subida. E sobe crente e dócil a duna de areia e depois atira-se nos pequenos amontoados de chuva. Escolhe-se a água conforme a boa vontade e o preço. O pianista insiste na melódica de beethoven enquanto rouba os sons de tudo que lhe soa bem. Ladrão de sons e sonhos.
Quando deixamos discorrer sobre infidelidades aparecem jorrados nos ladrilhos os ladrões, pelo menos um ladrão de sonho, bate do bolso de trás do amante querendo estar alegre com o boi umas quarenta palavras e seus adereços, ele geme outra vez seus sonhos descritos definidamente em um boletim de ocorrência no meio da noite no maranhão – era o acordeão da Dona Cândida, bebendo whisky com cocacola.
Eu apenas beijei a boca de um fato ardido, coloquei a língua toda cheia de falta de sonho dentro de sua boca, e grudei nos seus lábios como quando caçamos homem, mulher e javali e beijamos para fazer da vida, comida. Sou apenas um pedaço de lua devorado por um leão com minha boca inteira colada naquele fato maciço, macio de lábios, mastrodonte nos meus dentes e eu lambendo toda aquela gengiva aberta com uma felicidade mentida, que fatos feitos de argila seca não podem suportar, eles racham; mas o fato desmilinguia quando eu subitamente largava sua boca e estalava os meus grande lábios caídos. A pele da Dona Cândida é cheia de poros e tem uma mordida na nádega direita que ela deitou com o fato, mas não dormiu com o diabo. Sabe por que é que a guria que tem medo de ter medo do mar vê o filme do Filisberto doze vezes?
Lá no squat, nos tempos em que ela se sentia uma Xuxa entre os desabrigados, gritava o que mais podemos fazer e cortava com culhões os grilhões com os dentes caninos, ela derramou meio litro de sexo com xarope de hortelã, acidentalmente nas pernas grossas da mulher do empresário que gozou antes dela – muitas pessoas foram desalojadas ao som de uma opera que se ouve apenas com o clitóris. Mas a foca grande que já botou medo na Patrícia Finagaev saiu assobiando uma escuridão. Em qualquer parede de tijolo ela repousa a cabeça, ela quer se entregar quando amanhecer e virar um feto. Seria como uma garota jogando descentralizadamente confetes e infidelidades. Não, você não vai chegar ao fim disto, o fim de uma mistura de palavras desdonadas é feita de eu não devo nada a você, uma mordida na jugular que nunca desejou bocas perto – elas ofegam, elas babam, elas chupam – descentralize a corja toda e comece com teus primos, teus tios, teus pintos, teus filhos, teus pavorzinhos secretos, teus ossos, teus velhos slogans cheios de exageros, teus seios que chegam antes do resto de você, teus desejos prontos para serem alcançados com ruas mãos feitas de aço inoxidável; eles escapam pelo meio dos teus dedos, os dedos que eles usaram para entrar naquele quarto no meio da noite e as mãos coçando o queixo caçoando de queixas se arrastaram para perto das pernas grossas da esposa de outro homem e arremessou a boca contra ela como quem beijasse um fazedor de verdades. Perdão. Nada de centro, a esposa é só uma esposa – todo mundo é esposa, todo mundo é esposa cheia de curiosidade incontrolável por todos os homens que não são marido e nenhum homem é só marido. Um pequeno pássaro ocupa teus tímpanos depois da chuva cair, canivetes. Longa espera por um centro – três meninas que cresceram, todas com sardas e todas casadas. Você não vai enfiar esta carta na caixa de correio. Coma só a sobremesa, coma somente a cereja.
ESQUIZOTRANS
NEM PERTENCE A UM CORPO COM ÓRGÃOS DE MAIS
Por Fabiane Borges e Hilan Bensunsan
Ela era feita de um corpo pós-edipiano e amava sua mãe desde que com ela foi expulsa de três igrejas. Eu era o Ente, a tia de alguém, e ela ficou descontrolada quando viu minha camisola roçando nos seus quadris. Ela apertava as mãos em seus cabelos escutando o Nirvana rimar sua libido com um mosquito e de vez em quando lamentava ter arrancado seu pênis algumas vezes de forma tão incisiva, para nunca mais... Logo perguntaria ao psiquiatra quantas vezes poderia mudar de sexo em sua vida. Suas tragédias não passavam de cardápios de fim de noite em restaurantes de pousadas sem pretensões na costa do Ceará. Mas eram tragédias de apertar as mãos no cabelo. Ela arrancara o seu primeiro pinto com um quebrador de nozes quando a rola estava dura de ver um judeuzinho sardento abaixar a cabeça para deixar o irmão mais velho satisfeito – ela, a rola, ficara tão dura que ele não sabia mais o que fazer e foi incisivo. Demoraram seis anos para ele decidir-se a botar a bucetona ali onde havia os frangalhos do caralho. Ficou de buceta uns anos, foi tempo de dar para um afinador de pianos e de tentar ser tentáculo de nabo, de pepino, de cenoura – quando a maré enchia ela colocava o seu vibrador holandês e apertava o botão “come in 20 seconds”. Era inundada por aquela porra fabricada, com cheiro de camisinha de morango. Elaine Rolnik dizia que para a maior parte dos brasileiros um pau devia cheirar a morango. Disse ao médico que queria uma pica de novo e ele lhe fez a pica – aos moldes de um homem que há muitos anos contracenou em um filme com a Cicciolina. Comeu três irmãs judias do judeuzinho sardento, todas sardentas e com seios que pareciam, cada um, com o mundo todo; mas não comeu o judeuzinho. Arrancou fora o pênis desta vez com uma dentada da mais nova das Rosenberg que nunca entendeu porque ele punha seu corpo à disposição da solidariedade com todas as pessoas da cidade. Ela sim era mais incisiva que o quebra-nozes. Esculpiu uma vagina aconchegante entre as pernas e se pôs a ser parte de um grupo de mulheres pela liberação imediata de toda tecnologia. Acabou levada pelo Ente com uma barba que crescia para perto do mar para escrever sobre os tempos em que atravessava a rua com tornozeleiras para mostrar aos médicos que as pessoas tem o direito de ficar na genitália que conseguem ocupar.
- Guarda o teu pauzinho para a próxima menina especial que tu encontrar na praia.
Ela não queria aquele rapaz, não na praia, não quando ela estava concentrada no que escrevia. Não precisava mostrar a um homúnculo dentro de si que era capaz de levar a cabo a sedução que derramaram sobre seu corpo na beira do mar. Precisava mostrar a um homúnculo dentro de si apenas que era capaz de atrair a sedução – que alguém quisesse se arriscar por ela. Ser desejada – aquilo era um tonificante para os seus músculos, era um liquidificador para o seu sangue. Sentia-se retomada de promessas, de algo que não necessariamente tivesse que ser cumprido, mas que a injetasse numa dose de esperança, sem condição de fracasso, enfim era crédula demais para acreditar em fracassos cheios de pureza. O que sempre considerou em suas trocas insistentes de sexo, tira e bota peito, tira e bota pau no cú, na boca e no próprio pau, que às vezes é boceta.
Os problemas que tinha realmente eram com amigos, que tinham sempre que estarem sendo investidos da novidade de sua sexualidade mórbida para alguns, inconfessavelmente sexy para outros, como para o seu colega do terceiro colegial. Com ele sempre conseguiu chorar, era de uma ternura, de uma vulnerabilidade falsa, porque cética como era, não podia acreditar nem em suas próprias lágrimas, mesmo assim o coitado do amigo lhe servia de ombro, de lenço , de um consolo bem distante do que costumava levar na bolsa.
Ficou estranhado com a última operação. Virara homem de novo, para não desejar nem homens nem mulheres, mas neófitos. Queria tudo que aprendia e se surprendia, mas que não tinha juízo ainda pra julgar o intempestivo... Se dava à escrita sem cair no pecado mortal da pedofilia. Gostava de resistir um pouco aos pecados mortais, não é que desejava eles por serem pecados nem por serem mortais – desejava o que desejava: aquele pau da menininha que nunca fora chupado; ela, tão pequena, tão urbana, tão convencida de que uma menininha não tinha pinto. Foi o Ente que lhe contou, em confidencia bebendo gim com vermute na beira das águas belas, que ela, a menina do bikini azul – ela, que parecia com a crente em deus que quase alucinara os dois pregando contra os santos da umbanda enquanto roçava a perna sobre seus joelhos em um bugue alugado com espaço para menos de três – era sabida desde recém-nascida. A menina do bikini azul nasceu com tudo, a operação não aconteceu porque a médica se encantou com o pênis por vir, que segurou com suas mãos e, vendo naquelas carnes minúsculas uma pica grossa como a do enfermeiro que trabalhava ao lado e dormia com ela no meio da semana, decidiu deixar a menina como estava. Nada, ninguém iria colocar em questão a sua reputação – deixa a pica lá, chamemos a menina uma menina. E ela cresceu, o bikini azul flutuando com suas costas no rio que leva ao mar. Eles alcançaram ela enfiando os pés em um banco de areia e a paciência de esperar ela boiar até eles, e ela chegou devagar sem saber que se sorrisse por mais um minuto ou dois terminaria com as mãos dos dois por todo o seu corpo. A menina do bikini azul não resistiu nem ao Ente, nem a ela, de pau quase novo, que tocou suas coxas e, olhando em torno, deixou sua boca ser beijada. Ela não era beijada na boca por qualquer um, apenas dois homens, que terminaram morando com ela por quatro anos cada, enfiaram a língua no seu céu da boca. Agora, a menina do bikini azul, lábios grossos colados nos dele, e ele com as mãos na sua bunda e bastou alguns segundos para sentir o pinto por dentro do bikini azul, grosso como imaginara a médica, ela, e a médica, gostava. Em dez minutos eles estavam em um quarto com vista para a areia e a menina sem o bikini azul, os peitos cada um na mão de um e a buceta mordida pelo Ente; o membro despercebido, ela iniciou a menina que nem sabia que tinha um pinto e gozou na boca dela uma porra de virgem, uma porra com gosto de bikini azul – muita porra.
O psiquiatra foi encorajador e incisivo como as pessoas que vestem branco aprendem a ser: não havia limites na alma humana para modificações nas configurações das peles entre as pernas. Não precisaria se lamentar, apenas passar pelo ligeiro incômodo de sentar e esperar de pernas abertas que lhe mudem o permanente. E depois, ele sugeriu com aqueles ares de quem não se incomoda em supervalorizar sua especialidade: a alma humana pode até prescindir destas intervenções micro-cirúrgicas. Basta mudar os gestos. Mas não se convencera, sempre quis ter um pau para cada coisa ao invés de ter pau pra toda obra. E nunca gostara de pensar em escova progressiva. Mesmo assim correu para o cirurgião: a menina do bikini azul, como? É que ela e o Ente levaram a garota para um festival de cinema transviado, potente, potente, ficou amiga da Juliana que vestia seios e que sussurrava no ouvido de todas as outras que queria muito poder ir a um terceiro banheiro. No fim da noite, depois de sambar ao som de forró, merengue e reggae, Ju se desabafou na rua mesmo, no canto da calçada, de pé. Melhor assim. Já a menina do bikini azul queria saber tudo – o pequeno mundo dos homens sempre foi mundo distante; a distante terra dos meninos que tentam passar a mão na bunda das meninas gostosas e agora ela acordava todos os dias com pau chupado. Sua mãe há anos não olhava o terreno todo acidentado entre suas pernas e as outras meninas eram discretas e ela mesma aprendeu desde que cresceram pelos por toda a região que era melhor virar de costas e exibir a parte de trás do seu corpo, suas nádegas crescidas e arredondadas – ela sabia que ali era sua melhor coleção de formas e as meninas não olhavam do outro lado daquilo tudo. Sua mãe lhe falava, contou sobre menstruação e lhe ensinou a contar os dias, a olhar a lua, a não manchar as roupas e ela aprendeu e acostumou – cólicas moderadas no dia antes do sangue, o lugar certo para o equipamento de estancar o fluxo, e os dias: sempre vinte e oito dias precisos. Ela andava sempre com as primas, um pouco mais jovens que ela e que queriam aprender a ficar mulher com ela; tinha a prima Marjorie, seios pequenos, ancas modestas e lhe impunha seu ciclo sempre que passava uns dias dormindo na sua casa – Marjorie perturbava, uma fêmea de cheiro forte. Ali, no festival de cinema transviado, com Ju, com os dois que descobriram um falo nela ela se deu conta de que tinha sangue macho dentro dela. Uma madrugada de lua cheia ela olhou para o alto, sua mão direita foi rapidamente para aquilo que havia entre as suas pernas e uma angústia. Ouviu falar tanto de operações, colocar e tirar coisas daquilo que sempre foi do jeito que ela se acostumara a ser; ela nunca gostou de médico, tinha autoconfiança toda rígida com sua saúde, talvez adolescente e, no entanto, ela nunca gripava, quase nunca se machucava e dormia bem – comia agrião, espinafre, horas chupando frutas.
Era um bando de três no festival de cinema e, às vezes, na praia, o coração deles batia muito rápido. Classificaram as pessoas em dois tipos, as que amavam e as que nasceram para desejar. Logo confundiram as duas equipes e quanto mais confundiam mais rápido batiam os três corações. Passaram alguns dias assim grudados: ela, estreando seu pau novo, o Ente, preocupado, e a menina que comprara um outro bikini na praia do Futuro, também azul, mas ainda mais celestial.
Por Fabiane Borges e Hilan Bensunsan
Ela era feita de um corpo pós-edipiano e amava sua mãe desde que com ela foi expulsa de três igrejas. Eu era o Ente, a tia de alguém, e ela ficou descontrolada quando viu minha camisola roçando nos seus quadris. Ela apertava as mãos em seus cabelos escutando o Nirvana rimar sua libido com um mosquito e de vez em quando lamentava ter arrancado seu pênis algumas vezes de forma tão incisiva, para nunca mais... Logo perguntaria ao psiquiatra quantas vezes poderia mudar de sexo em sua vida. Suas tragédias não passavam de cardápios de fim de noite em restaurantes de pousadas sem pretensões na costa do Ceará. Mas eram tragédias de apertar as mãos no cabelo. Ela arrancara o seu primeiro pinto com um quebrador de nozes quando a rola estava dura de ver um judeuzinho sardento abaixar a cabeça para deixar o irmão mais velho satisfeito – ela, a rola, ficara tão dura que ele não sabia mais o que fazer e foi incisivo. Demoraram seis anos para ele decidir-se a botar a bucetona ali onde havia os frangalhos do caralho. Ficou de buceta uns anos, foi tempo de dar para um afinador de pianos e de tentar ser tentáculo de nabo, de pepino, de cenoura – quando a maré enchia ela colocava o seu vibrador holandês e apertava o botão “come in 20 seconds”. Era inundada por aquela porra fabricada, com cheiro de camisinha de morango. Elaine Rolnik dizia que para a maior parte dos brasileiros um pau devia cheirar a morango. Disse ao médico que queria uma pica de novo e ele lhe fez a pica – aos moldes de um homem que há muitos anos contracenou em um filme com a Cicciolina. Comeu três irmãs judias do judeuzinho sardento, todas sardentas e com seios que pareciam, cada um, com o mundo todo; mas não comeu o judeuzinho. Arrancou fora o pênis desta vez com uma dentada da mais nova das Rosenberg que nunca entendeu porque ele punha seu corpo à disposição da solidariedade com todas as pessoas da cidade. Ela sim era mais incisiva que o quebra-nozes. Esculpiu uma vagina aconchegante entre as pernas e se pôs a ser parte de um grupo de mulheres pela liberação imediata de toda tecnologia. Acabou levada pelo Ente com uma barba que crescia para perto do mar para escrever sobre os tempos em que atravessava a rua com tornozeleiras para mostrar aos médicos que as pessoas tem o direito de ficar na genitália que conseguem ocupar.
- Guarda o teu pauzinho para a próxima menina especial que tu encontrar na praia.
Ela não queria aquele rapaz, não na praia, não quando ela estava concentrada no que escrevia. Não precisava mostrar a um homúnculo dentro de si que era capaz de levar a cabo a sedução que derramaram sobre seu corpo na beira do mar. Precisava mostrar a um homúnculo dentro de si apenas que era capaz de atrair a sedução – que alguém quisesse se arriscar por ela. Ser desejada – aquilo era um tonificante para os seus músculos, era um liquidificador para o seu sangue. Sentia-se retomada de promessas, de algo que não necessariamente tivesse que ser cumprido, mas que a injetasse numa dose de esperança, sem condição de fracasso, enfim era crédula demais para acreditar em fracassos cheios de pureza. O que sempre considerou em suas trocas insistentes de sexo, tira e bota peito, tira e bota pau no cú, na boca e no próprio pau, que às vezes é boceta.
Os problemas que tinha realmente eram com amigos, que tinham sempre que estarem sendo investidos da novidade de sua sexualidade mórbida para alguns, inconfessavelmente sexy para outros, como para o seu colega do terceiro colegial. Com ele sempre conseguiu chorar, era de uma ternura, de uma vulnerabilidade falsa, porque cética como era, não podia acreditar nem em suas próprias lágrimas, mesmo assim o coitado do amigo lhe servia de ombro, de lenço , de um consolo bem distante do que costumava levar na bolsa.
Ficou estranhado com a última operação. Virara homem de novo, para não desejar nem homens nem mulheres, mas neófitos. Queria tudo que aprendia e se surprendia, mas que não tinha juízo ainda pra julgar o intempestivo... Se dava à escrita sem cair no pecado mortal da pedofilia. Gostava de resistir um pouco aos pecados mortais, não é que desejava eles por serem pecados nem por serem mortais – desejava o que desejava: aquele pau da menininha que nunca fora chupado; ela, tão pequena, tão urbana, tão convencida de que uma menininha não tinha pinto. Foi o Ente que lhe contou, em confidencia bebendo gim com vermute na beira das águas belas, que ela, a menina do bikini azul – ela, que parecia com a crente em deus que quase alucinara os dois pregando contra os santos da umbanda enquanto roçava a perna sobre seus joelhos em um bugue alugado com espaço para menos de três – era sabida desde recém-nascida. A menina do bikini azul nasceu com tudo, a operação não aconteceu porque a médica se encantou com o pênis por vir, que segurou com suas mãos e, vendo naquelas carnes minúsculas uma pica grossa como a do enfermeiro que trabalhava ao lado e dormia com ela no meio da semana, decidiu deixar a menina como estava. Nada, ninguém iria colocar em questão a sua reputação – deixa a pica lá, chamemos a menina uma menina. E ela cresceu, o bikini azul flutuando com suas costas no rio que leva ao mar. Eles alcançaram ela enfiando os pés em um banco de areia e a paciência de esperar ela boiar até eles, e ela chegou devagar sem saber que se sorrisse por mais um minuto ou dois terminaria com as mãos dos dois por todo o seu corpo. A menina do bikini azul não resistiu nem ao Ente, nem a ela, de pau quase novo, que tocou suas coxas e, olhando em torno, deixou sua boca ser beijada. Ela não era beijada na boca por qualquer um, apenas dois homens, que terminaram morando com ela por quatro anos cada, enfiaram a língua no seu céu da boca. Agora, a menina do bikini azul, lábios grossos colados nos dele, e ele com as mãos na sua bunda e bastou alguns segundos para sentir o pinto por dentro do bikini azul, grosso como imaginara a médica, ela, e a médica, gostava. Em dez minutos eles estavam em um quarto com vista para a areia e a menina sem o bikini azul, os peitos cada um na mão de um e a buceta mordida pelo Ente; o membro despercebido, ela iniciou a menina que nem sabia que tinha um pinto e gozou na boca dela uma porra de virgem, uma porra com gosto de bikini azul – muita porra.
O psiquiatra foi encorajador e incisivo como as pessoas que vestem branco aprendem a ser: não havia limites na alma humana para modificações nas configurações das peles entre as pernas. Não precisaria se lamentar, apenas passar pelo ligeiro incômodo de sentar e esperar de pernas abertas que lhe mudem o permanente. E depois, ele sugeriu com aqueles ares de quem não se incomoda em supervalorizar sua especialidade: a alma humana pode até prescindir destas intervenções micro-cirúrgicas. Basta mudar os gestos. Mas não se convencera, sempre quis ter um pau para cada coisa ao invés de ter pau pra toda obra. E nunca gostara de pensar em escova progressiva. Mesmo assim correu para o cirurgião: a menina do bikini azul, como? É que ela e o Ente levaram a garota para um festival de cinema transviado, potente, potente, ficou amiga da Juliana que vestia seios e que sussurrava no ouvido de todas as outras que queria muito poder ir a um terceiro banheiro. No fim da noite, depois de sambar ao som de forró, merengue e reggae, Ju se desabafou na rua mesmo, no canto da calçada, de pé. Melhor assim. Já a menina do bikini azul queria saber tudo – o pequeno mundo dos homens sempre foi mundo distante; a distante terra dos meninos que tentam passar a mão na bunda das meninas gostosas e agora ela acordava todos os dias com pau chupado. Sua mãe há anos não olhava o terreno todo acidentado entre suas pernas e as outras meninas eram discretas e ela mesma aprendeu desde que cresceram pelos por toda a região que era melhor virar de costas e exibir a parte de trás do seu corpo, suas nádegas crescidas e arredondadas – ela sabia que ali era sua melhor coleção de formas e as meninas não olhavam do outro lado daquilo tudo. Sua mãe lhe falava, contou sobre menstruação e lhe ensinou a contar os dias, a olhar a lua, a não manchar as roupas e ela aprendeu e acostumou – cólicas moderadas no dia antes do sangue, o lugar certo para o equipamento de estancar o fluxo, e os dias: sempre vinte e oito dias precisos. Ela andava sempre com as primas, um pouco mais jovens que ela e que queriam aprender a ficar mulher com ela; tinha a prima Marjorie, seios pequenos, ancas modestas e lhe impunha seu ciclo sempre que passava uns dias dormindo na sua casa – Marjorie perturbava, uma fêmea de cheiro forte. Ali, no festival de cinema transviado, com Ju, com os dois que descobriram um falo nela ela se deu conta de que tinha sangue macho dentro dela. Uma madrugada de lua cheia ela olhou para o alto, sua mão direita foi rapidamente para aquilo que havia entre as suas pernas e uma angústia. Ouviu falar tanto de operações, colocar e tirar coisas daquilo que sempre foi do jeito que ela se acostumara a ser; ela nunca gostou de médico, tinha autoconfiança toda rígida com sua saúde, talvez adolescente e, no entanto, ela nunca gripava, quase nunca se machucava e dormia bem – comia agrião, espinafre, horas chupando frutas.
Era um bando de três no festival de cinema e, às vezes, na praia, o coração deles batia muito rápido. Classificaram as pessoas em dois tipos, as que amavam e as que nasceram para desejar. Logo confundiram as duas equipes e quanto mais confundiam mais rápido batiam os três corações. Passaram alguns dias assim grudados: ela, estreando seu pau novo, o Ente, preocupado, e a menina que comprara um outro bikini na praia do Futuro, também azul, mas ainda mais celestial.
quarta-feira, 24 de outubro de 2007
EROTICOMIA

EROTICOMIA
Sexta feira, 26/10/2007, 21 horas no Espaço Bananeiras,
Ladeira do Castro, 209, Largo Guimarães Santa Tereza
Erotismo, sensualidade, pornografia, prostituição, tráfegos sexuais, tráficos drogados, travestis, transexuais, transgêneros, putaria, orgias, o sexo e a morte do funk, a favela, o BOPE, o espaço público do consumo e da guerra.
A sensualidade do porte da droga e da arma produzindo vontade de sexo. A venda, a compra. A carne vendida por atacado, a carne que não vale nada, o sublime injetado no poder do tiro na vida, na coca. O photoshop.
Falar em erotismo sem falar em violência seria retirar um importante duplo da sensualidade. Ninguém quer almoçar com Sade e Masoch, mas vouyerizá-los para se apavorar, e depois voltar para um certo território identificável onde os preconceitos servem de muralha para se pular de vez enquando no pensamento ou no ato esquizofrênico do consumo escondido.
O sujeito-carne, a carne objeto, seja homem, mulher, criança, velho, boi, eletricidade, o que for, somos produtores, consumo e consumidores da produção de desejo. Qual seu preço? Dou-te em oferenda.
Pra além da catarse e do choque, afirmamos as formas de mobilização e resistência onde consciência e desejo, tesão e concentração, escolha e acaso possam pertencer ao nosso estado de realidade, virtualidade e presença. Os fótons da tela do computador queimam minha retina. Erótico, presencial, ânima, animal.
Mas que não se esqueça do riso rindo-se de si mesmo!!!!!
Traga seu fetiche e sua crise!
E viva as taras!!!
Esses são os conteúdos do evento EROTICOMIA.
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